27 julho, 2009

Sufocar as palavras


Estou cheia de palavras e não consigo tirar-lhes a tampa, para que se passeiem livres pela casa, e me encham os recantos, e dêem os recados a quem os precisa ouvir.

Faço orelhas moucas ao meu querer, aos meus sussurros, porque tanto me habituei a este "não querer magoar".

Desconheço-me, eu, que me achava dona de alguma força que me valia de abrigo em alturas de tempestade, não encontro, naufrago no meu próprio medo, agarrada que estou a uma tábua que tem o nome "responsabilidade" tatuado.

Sei que não é esta que sou, mas vejo-me encolhida sob o peso do tempo, e do carinho, e da insegurança, e do dever, e de tantas outras palavras que uso para disfarçar e perfumar e maquilhar o que não sei que é, e canso-me das minhas guerras, das guerras que vivem em mim e que descanso não me dão.

Sei que não é para sempre este vaguear indeciso, sei que chega o ponto da irrversibilidade, mas não o vejo nem quero ver lá no horizonte, queria saber que há caminho a fazer antes de lá chegar, queria talvez que o Mundo fosse cor-de-rosa e tudo encaixasse, uma vez só, vá lá, mostra-me que tens asas e pernas e que não sou o teu umbigo, o teu centro, vá lá. Porque esse peso eu não quero e nunca quis, e assim não sei viver.

Não lhe tiro a tampa, não, mas dentro de mim fervem num borbulhar furioso e tento empurrá-las de novo para o chão, para os pés, porque na boca não, no coração não, não.

Dá-me descanso, Universo, deixa-me estar um bocadinho só, sim?

4 comentários:

XR disse...

Como te compreendo, Luz ...
Virá o dia em que as palavras voarão livres, talvez. Resta-te(nos) esperar sem perder a esperança.

O que custa é não saber quão mais teremos que aguardar - quantos dias, meses, anos de palavras amordaçadas, contidas, sufocadas, afogadas dentro do peito. Manter acesa a chama apesar do ar cada vez mais rarefeito por não nos podermos dar ao luxo de abrir as portas do coração, pois que assim o ar entraria mas também as palavras sairiam - as mesmas que queremos calar à força ...

Beijinho

Lita disse...

Pudesse eu arrancar as minhas para tas dar. Não posso, muitas fechei também, no meu baú, esperando que o tempo e o mundo me dessem luz... "o teu nome". ;)

Posso apenas dizer-te que entendo perfeitamente, como se habitasse aí, dentro do teu peito.

Dá-te pelo menos o espeço e o tempo para respirar, abrir os braços e sentir a alma por dentro do teu corpo. As palavras virão, Luz. As palavras reais....

LBJ disse...

Não precisas de lhe tirar a tampa, porque se escapam para quem as quer ouvir e se o universo não te deixa só é porque te sente como parte do que não seria sem ti.

Beijos

luz disse...

XR, minha linda, eu nunca consegui calá-las durante muito tempo, e muitas vezes é preciso deixá-las ir, ainda que com muitos cuidados, gentilmente...

Lita, eu estou (mesmo) a tentar dar-me esse tempo, mas às vezes parece que o Mundo gira depressa demais à minha volta e acabo por saltar do carrocel e magoar-me...

LBJ, obrigado pelas tuas palavras, que sempre encontram eco cá dentro de mim!