19 junho, 2009

jogo de bola


O menino brincava no pátio com a bola amarela, redonda como o Sol.
Treinava concentrado o remate contra uma parede povoada de impropérios de estilo literário pobre, gritos de revolta em cores vibrantes e sinalécticas iletradas, alheio ao barulho que lhe chegava das janelas abertas com cortinas deslavadas e sujas, adivinhando vidas difíceis e rostos carregados de dureza por detrás.

Treinava o pontapé certeiro com os ténis rotos de tanto uso que a mãe lhe havia comprado num Natal distante, num Natal do qual já não recordava a luz, nem o sabor e muito menos a data, nem em tal pensava enquanto, pacientemente e com força, rematava. Num vai e vém, num vai e vém.

Um assobio saído do nada desperta-o do chuto ritmado da bola.

Uma menina de calção curto, olhar desafiante e cabelo da cor das cenouras que a mãe o obrigava a comer, dizendo que lhe adoçaria o olhar (mas ele sabia que era porque não havia mais nada), estava parada junto ao portão do páteo, como que pedindo (exigindo! a julgar pela postura corajosa...) atenção.

Teria sido ela quem assobiara?


"As meninas não assobiam, é feio."
"Oh, eu não ligo a isso. Deixas-me jogar contigo? Olha que eu sou boa, tenho jeito..."
"... hum... Ok, pode ser!"

Um sorriso rasgado iluminou a face de Clara, cujo coração batia apressado do medo da rejeição.
Tomás sorriu por dentro. Tinha adorado aquele sorriso dela, tinha gostado da atitude desprendida e em jeito de desafio. Seriam amigos.

Correndo com a bola nos pés, começaram assim a sua partilha cúmplice.

3 comentários:

acutilante - frank verlag disse...

Uma bela história; Bem contada e que me leva numa visita ao passado.

Icon disse...

uau!!
muito bem escrito!
adorei!

Luz disse...

Obrigado! :)