03 junho, 2009

o pesadelo

- Solta-me. Solta-me, peço-te (olhos unidos em prece, a boca crispada, os braços unidos pelas mãos dele, cabelos revoltos na raiva e no desespero).

- Não, sabes que não queres partir. Sabes que me dizes isso apenas para que te impeça, para que te prenda a mim, em mim, um instante mais (a frieza na voz, a calma distância, a madrugada a nascer por detrás das costas nuas, a cama em desalinho).

- Quero, tenho força! Vai-me doer, vai-me custar, mas vou-me libertar de ti, de ti que és apenas ilusão, que és apenas mentira, que és apenas o descanso de um fugaz minuto que pago com o desespero da alma (a coragem em ondas mareadas em crescendo, o corpo soluçado, lentamente, a erguer-se do seu estupor, a libertar-se das suas amarras, a crescer).

- Vais viver sem mim? Que mais tens? (certeza cortante e fria nas palavras, quase se lhes sente a textura áspera, o metal gelado no timbre).

- Tenho-me a mim.


Lentamente, afasta as lágrimas dos olhos negros, fixa o tecto, sente os músculos relaxar, o pesadelo como uma memória que ganha distância.

Vai viver.

2 comentários:

Fada disse...

Luz, que intenso!!!

E sim, temo-nos a nós! Dentro de nós está a nossa felicidade, a nossa razão de viver!

Gostei muito do teu texto!!!! :)

E obrigada pela visita lá na selva! :)
Bem-vinda, volta quando quiseres! :)

Beijitos

Luz disse...

Obrigado, Fada :)
Vou voltar à selva, sim, gostei muito de lá estar!